quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Um novo começo 10

Capítulo 10

Ao decidir-se por ir em direção a Gui e deixar a verdade aparecer de uma vez para que toda a escola, Ronnie, Gui e quem quer que estivesse ali pudesse ver, ela sabia que sairia machucada daquilo, mas era melhor que fosse sincera, pelo menos nisso...
Quando deu o primeiro passo batendo o salto do sapato boneca no chão, recebeu um empurrão leve que a fez parar naquele momento enquanto passava por ela as tranças loiras cuja nunca esqueceria. Era Hellen.
- Gui! Gritou Hellen enquanto corria em direção a Gui, roubando também a atenção de Ronnie por um breve segundo.
Era o que Joan precisava. Num ato furtivo, virou-se e escondeu o rosto. Com sua visão periférica conseguiu ver Gui sendo puxado por Hellen para a saída do colégio enquanto Ronnie achava a situação engraçada. Neste momento, Ronnie vira-se para ela. Não tinha mais o que esconder. O coração dela disparava. Ao mesmo tempo em que sentia raiva de Hellen por aquela atitude mesquinha, Joan a agradecia por tirar Gui dali. E estava tensa querendo que Gui não a visse com Ronnie. Gui, mesmo sendo puxado as pressas ainda olhava para trás caçando o olhar de Joan.
- Você viu isso, Joan? Falou Laura atônita.
- Vi. Disse Joan séria.
- Você não vai fazer nada? Perguntou Laura.
- Tenho problemas maiores para cuidar... Disse isso ao perceber que Ronnie vinha em sua direção enquanto Gui olhava incessantemente para trás. Não queria que ele a visse com Ronnie, mas também não suportava a idéia de ver Gui com Hellen.
Neste momento Ronnie chega de sopetão e dá um forte abraço em Joan, um abraço que quase a tira do chão. Joan estremece.
- Joan, adorei essa escola, esse uniforme, gostei de tudo. Vou curtir muito estudar aqui. Fala Ronnie com seu jeito espalhafatoso.
Os olhos de Joan, por cima dos ombros de Ronnie, estão mirados em outro lugar. Gui e Hellen encostados em uma das arvores da rua. Gui, ao engolir seco o abraço de Ronnie, faz uma expressão insatisfeita. Hellen aproveita a distração e lhe dá um suculento beijo que é logo correspondido.
As palavras de Ronnie em seu ouvido não passam de grego, enquanto ela vê seu novo amor voando para longe de si, ao lado de uma garota loira de tranças. Ele a solta, colocando-a no chão. Ela faz o possível para disfarçar a decepção enquanto atua na frente de Laura e Ronnie.
- Você nem apresenta suas amigas Joan... Diz Ronnie olhando para Laura.
- Esta é Laura. Laura este é... Um amigo... Ronnie.
- Prazer. Diz Laura, sem entender nada. Eu já vou. Até amanhã Joan.
- Até...
Naquele momento, Joan sai da escola decepcionada.
- Nossa! Essa escola é enorme! Tem piscina, quadras, sala de música, arte... Eu vou curtir muito isso aqui. Ronnie comenta muito empolgado.
- Quem te deixou vir aqui? Diz Joan muito brava.
- Qual o problema? Eu não ia fazer nada.
- Não ia? Você já fez, destruiu minha vida social! Diz Joan, chorando e gritando.
- Mas... Desculpe Joan. Seja lá o que eu tenha feito, perdoe-me. Diz Ronnie, com o coração sincero.
- É melhor você ficar quieto Ronnie. Não fale mais comigo.
Ronnie abaixa a cabeça e acompanha Joan até em casa, sentindo um culpa que na verdade não existia.
Chegou em sua casa, colocou almoço para Tales, subiu e deitou em sua cama, chorando com o rosto colado no seu travesseiro.
“Gui, por que, tão perto, tão longe... Eu sabia que não deveria me apaixonar de novo... Aconteceu de novo. Eu acreditei, e quando menos esperei... fui apunhalada, pela minha própria indecisão.” Lembrou-se do que havia acontecido na fazenda, no dia em que Ronnie a cometeu a pior traição de sua vida.
Uma semana após sua avó ter morrido, avó que era praticamente sua mãe, Joan já encontrava-se trancada em seu quarto há cinco dias. Nem teve forças para freqüentar as aulas e deixou Ronnie, o grande amor da sua vida, de lado. Não queria ver e nem falar com ninguém.
Ludmilla, sua melhor amiga na época, uma garota de pele branca, sardas, longos cabelos ruivos, tentou visitá-la durante sua reclusão.
- Joan, Joan querida, abra a porta por favor... Disse Ludmilla batendo na porta ansiosamente.
Ludmilla, com o rosto colado a porta trajava um xale de crochê, uma saia rodada e longa e uma blusa de botões. No cabelo, uma rosa de crochê, que Joan adorava pedir emprestado.
Joan, sentada sobre sua cama, trajando o seu pijama rosa e segurando em suas mãos o pingente do colar que tanto gostava, ouvia as palavras de sua amiga sem esboçar reação.
- É melhor voltar outra hora... Disse uma das tias de Joan que morava no casarão de sua avó.
- É... Disse Lud decepcionada.
Ninguém compreendera na época a falta que Vovó fazia na vida de Joan. Ela era a neta mais próxima, mais paparicada. Sempre trazia em seu peito o pingente que ganhou de sua avó. Nunca comprovaram se era ou não uma pedra preciosa. Era a única neta a ter um quarto no casarão. Talvez porque seus pais trabalhassem na cidade e só estivessem em casa nos fins de semana. A família preferia entregar-se a ciumeira e criticar a criação que Vovó dava a Joan.
- Joan, tem telefone para você. É o Ronnie. Fala tia Flora atrás da porta.
- Pede pra ele ligar depois, por favor.
- Tá...
Naquela mesma noite ela resolveu sair do quarto. Descendo em passos leves para a cozinha, ela ouve que suas tias falavam dela.
- A Joan, ficou muito abalada com a morte de Mamãe. Disse tia Flora, com quem Joan simpatizava mais.
- É, mas isso foi porque minha mãe acostumou ela muito mal. Ficava mimando a garota, dando o que ela queria... Ela tinha mãe e pai para criá-la! Disse tia Malva, que era quem mais a criticava.
- Até entendo Mamãe... Queria que toda família ficasse unida até que sua morte chegasse... Disse tia Polônia. Uma tia mais reclusa, não morava no casarão, mas estava sempre próxima para ajudar. Ela sabia da doença degenerativa de sua avó.
- Eu também entendo Polly... tia Flora fala em tom compreensivo.
- Ah, no fundo vocês pensam o mesmo que eu. Só que tem vergonha de falar. Tia Malva retrucou.
Joan, naquele momento tomou a decisão de sair de vez da casa de sua avó. Ela não estava mais lá, não havia nada que a prendesse. Tomou um banho, escolheu a melhor roupa limpa e passada que tinha para ver Ronnie. Até sabia onde ele estava naquele dia. Sexta, às dez da noite, só poderia estar na praça da cidadela.
Pegou seu vestido rippie branco, colocou uma tiara branca e uma sandália rasteira, que sua mãe tinha trazido da cidade.
Precisava de um daqueles abraços apertados de Ronnie. Precisava chorar no ombro de alguém. Esperava também esbarrar com Ludmilla e contar-lhe tudo que estava passando... Alugar novamente a amiga com suas histórias...
Pegou sua bicicleta rosa e pedalou pela cidadela respirando o ar puro que há dias não sentia tocar em seu rosto. Traçou todo um planejamento sobre sua vida, seu futuro, e ousou até mesmo a pensar no seu casamento com Ronnie! Era um sonho tolo, gostoso de viver. Imaginou as damas de honra, os enfeites do salão de festas, os convidados chegando... Quando desceu da bicicleta, diante do tráfego de pessoas na praça e a levou ao seu lado.
Precisava encontrar Ronnie. Foi até a barraca que ele mais gostava, que era a de maçã do amor. Foi batata! Lá estava ele. De quebra encontrou também sua amiga Ludmilla. Os dois andando juntos abraçados e dividindo a mesma maçã do amor. E eis que antes que a mente de Joan esboçasse uma reação, eles beijam-se na frente de todos na praça, sem medo nenhum de serem vistos.
O mundo de Joan desabou novamente.
- Que porcaria é essa Ronnie? Gritou Joan incitando o barraco.
- Joan, eu posso explicar, naquele dia que eu fui à sua casa eu... Intrometeu-se Lud.
- Cale a boca sua cachorra desgraçada!
- Joan, eu tentei ligar pra você a semana toda, você não me atendeu... Nem quis que eu te visitasse...
- Ah! Mas não havíamos terminado ainda! Será que você não entende o que eu passei? Minha vó tinha acabado de morrer...
- Acabado? Já faz uma semana que... Ronnie tenta emendar.
- Você não sabe o que é Luto? Você nunca amou ninguém de verdade?
- Eu amo ainda, você...
- Com essa prova que você acaba de me dar?
- Joan eu pretendia te contar, Ronnie também, tanto que tentamos falar com você vários dias, mas você não atendia. Ludmilla intervém desesperada.
- Se fosse minha amiga mesmo não teria feito isso.
- Joan, me perdoe. Eu não queria fazer isso. Aconteceu.
- Se realmente não quisesse, não teria feito. Agora que vovó me deixou, não há nada que me prenda a este lugar.
Ronnie e Ludmilla baixam a cabeça.
Joan monta na bicicleta e só não é atropelada por milagre.
Chega em casa e comunica o fim de namoro aos seus pais, que acabavam de chegar a cidade. Apesar da decepção deles pelo fim do relacionamento, por adorarem Ronnie, eles resolvem não dar nenhum palpite.
- Mãe, assim que vocês forem se mudar, vou junto. Dessa vez é definitivo.
Tales, seu irmão menor que fica na casa da cidade com seus pais, chega correndo e abraça Joan.
- Você tava chorando?
- Tava não Tales. Mãe, não precisa preparar meu jantar. Não vou conseguir comer mesmo.
Depois de uma semana preparando os trâmites da viagem, Joan se muda deixando a cidadezinha para sempre.

sábado, 21 de novembro de 2009

Um novo começo 9

Capitulo 9

- Aahh! Joan gritava enquanto acordava de outro pesadelo. Desta vez, sonhou que seu amor por Gui estava ameaçado, pois ele havia sido trancado numa caixa de vidro e não poderia se comunicar com ela. Após uma tentativa frustrada de beijá-lo, ela acorda sufocada, respirando fundo.
Ao beber uma garrafa inteira de água gelada na cozinha, ela se lembra aos poucos do acontecido da noite anterior. Havia tido uma séria discussão com sua mãe após ela ter matriculado Ronnie em sua escola sem avisá-la. Sua mãe ignorava o fato de que, um dos motivos para ela ter concordado vir para a cidade, era afastar-se de Ronnie. Ainda se lembrava de alguns trechos da discussão:
- Joan, tira isso da sua cabeça. Alenne falava de pé, com a postura ereta que ela costumava ostentar. O Ronnie iria vir pra cá de qualquer jeito. Já estava combinado com os pais dele antes da gente se mudar. Só não te contamos porque...
-Porque você tinha certeza que eu não concordaria com isso né?
- Não é isso... Você estava muito fragilizada por conta da sua vó... Seu pai fala em tom terno.
- De qualquer forma, quem toma as decisões nessa casa não é você. Gritou sua mãe.
Neste momento, Joan vê que qualquer esforço seu será em vão. Seu ex-namorado que tanto a fez sofrer, está de volta, debaixo de seu teto e, o que é pior, de volta a sua vida.
Coloca o copo na pia enquanto anda pelo escuro procurando a escada que vai para seu quarto. Ao subir, ela sente um empurrão que quase a derruba no chão.
- Ah me desculpe.
-Tinha que ser você Ronnie. Fala Joan, irritada.
- Eu só estava descendo pra beber água. Está muito quente hoje e não consigo dormir.
- Eu sei. Mas eu preciso ir deitar. Logo estarei de pé de novo. O horário do Castelo é muito puxado.
- Espere. Diz ele pegando-a pelo braço. Tenho que te dizer uma coisa.
- Aff... Tente que ser rápido, por favor.
- É que eu... Na verdade eu não queria vir pra cá. Foram meus pais que me obrigaram a sair da fazenda. Desculpe-me se estou causando todo esse transtorno para ti. Disse ele com aquele sotaque carregado.
- Hum. Consente Joan, com expressão entediada, olhando para o lado. Agora pode soltar meu braço? Preciso durmir.
Ele alisa o braço mais carinhosamente.
- Mas... Não vou negar... A idéia de te ver de novo, me deixou muito feliz...
- Solta meu braço. Diz ela em um tom ríspido.
- Tá. Vou beber água. Boa noite.
Ela sobe em passos pesados. Se ela tivesse poder de lançar um raio sobre ele, com certeza, com o ódio que havia em seu coração, o raio se tornaria uma enorme tempestade devastadora.
Ao cobrir-se com o lençol e deixar entreaberta a janela para que o ar se renovasse, lembrou-se do momento em que Gui disse ter se lembrado do beijo na piscina. E indo mais longe ainda, sentia o gosto do lábio de Gui misturado ao sabor do cloro da piscina. Era o beijo mais saboroso de sua vida. As mãos de Gui, ásperas, sinceras, grossas, fortes, nem se comparavam aos toques de Ronnie. Joan se inebriava ao lembrar-se de Gui trajando aquele uniforme de almofadinha. O bordado em cima do peito, a mochila de carteiro, o cabelo negro, de lado, ainda com cheiro de cloro, um liso natural sem muito cuidado, no qual sua mão poderia perder-se infinitamente. No meio daqueles doces pensamentos dormiu, como que um anjo.
Chegou à sala de aula um verdadeiro bagaço. Não dormiu nada aquela noite. A hora que pegou no sono foi um pouco antes do despertador começar a tocar as músicas do rádio relógio. Logo no dia em que estrearia o uniforme novo, estava sem glamour algum. Cabelo preso em rabo de cavalo médio com uma franja caindo na frente de um dos olhos, maquiagem um pouco pesada para cobrir as olheiras, um batom um pouco mais forte que o habitual, e sono, muito sono.
- Joan, Joan, não durma na aula, a professora vai dar uma advertência a você se ficar assim. Laura falou ao ouvido de Joan para que ela retomasse a postura na cadeira.
- Ai ai... Se ela só ficar falando aí complica... Não sou fã de monólogos. Diz Joan, um pouco sonolenta e desajeitada.
- Fale baixo Joan, senão ela pode ouvir.
- Ah... Tá bom. Depois você me passa todas as anotações. Vou puxar um ronco. Diz Joan repousando sobre a carteira, enquanto a professora vem em sua direção.
- Acorde Joan, acorde, a professora está vindo! Sussurrava Laura.
- Joan, o que está acontecendo aqui? Foi pra balada é? Sua cara não é das melhores, parece que virou a noite na rua. Diz a professora cutucando Joan.
- Ah! Professora Melissa desculpe. Foi sem querer.
- É melhor que tenha sido mesmo. Se acontecer de novo, você vai pra direção. Agora desça e vá lavar este rosto. E tire esta maquiagem, está toda borrada.
Toda sala ri enquanto ela se levanta. Laura olha pra ela chateada. Pede pra acompanhá-la até o banheiro. Pega sua nécessaire na mochila e desce, seguindo a amiga.
Gui, no canto da sala, olha para ela, preocupada.
- Eu avisei... Você deveria pelo menos tentar ficar acordada... Seria melhor. Aconteceu alguma coisa que pudesse deixá-la chateada?
- Não... Joan mente, omitindo os fatos do dia anterior. Não quer que sua amiga saiba de Ronnie. Foi pura insônia.
- Acontece né. Aposto que ficou pensando no beijo da piscina. Disse Laura em alto som.
- Fale baixo! Você quer que alguém nos ouça? Disse Joan enquanto Laura passava o removedor de maquiagem no seu rosto.
- Mas me fale. Como foi o encontro de vocês?
- Se é que pode se chamar aquilo de encontro...
- Ah, mas não aconteceu nada?
- Conheci a tia dele e almoçamos na casa dele. Não pude ficar, tive que buscar Tales na escola.
- Mas e o beijo? Cadê? Perguntou Laura enquanto escolhia um tom de base para o rosto de Joan.
- Eu... Fiquei nervosa e não consegui... Sai correndo que nem uma louca!
- haahuehauhauahua! As duas riem da situação.
- Não pensei que fosse tão medrosa. Diz Laura com um riso no canto dos lábios.
- Ah Laura, poupe-me. Aposto como você nunca se apaixonou.
- Pior que sim.
- Hã? Diz Joan estarrecida.
- E o pior é que eu continuo apaixonada. Diz Laura sussurrando enquanto termina o trabalho de reconstrução no rosto de Joan.
- Quem é o gato pra eu poder te ajudar? Joan fala, empolgada.
- Ah... É o... Olha no espelho como você ficou, vê se você gosta.Diz Laura, despistando.
- Ta lindo, obrigada.
- De nada amiga, agora acho que é melhor que voltemos pra sala, antes que sintam nossa falta. E o Gui? Vai te esperar hoje?
- Ainda nem falei com ele... Espero que ele esteja lá, pelo menos pra eu dar um oi pra ele... Mas não me enrola e me mostra no intervalo quem é seu gato.
Elas saem do banheiro, voltando pra sala logo em seguida.
No intervalo, acaba nem vendo Gui. Só de relance, por um momento ele passa pelo pátio com uma pilha de papéis. Provavelmente pra gráfica da escola, onde é impresso o jornal.
O tempo voa e o sinal de ir embora toca.
- Joan, até amanhã. Olha ali o Gui está te esperando. Diz Laura apontando para o portão da escola. Gui aparece encostado no muro lendo um pequeno panfleto. Enquanto chega um outro cara e se encosta no muro, ao lado de Gui.
Joan tem uma visão dos infernos: Aqueles cabelos loiros e lisos se movimentando como um leque e aqueles olhos verdes não poderiam ser de outra pessoa. O cara que se encosta ao lado de Gui é Ronnie, que provavelmente foi à escola para xeretar sua vida! Sem saber que passo dar ela fica ali parada, sem reação, enquanto sua amiga Laura, sem entender a reação da amiga, fica ali tentando compreender o que está acontecendo.